quinta-feira, 16 de novembro de 2017

ABANDONO – Toada 
MILTON MACIEL (letra e música)

Um ouvido atento,
Suspiro agudo,
O ressentimento
Travando tudo;
Aqui, ao relento,
Soluço mudo,
Um exaurimento,
Estro desnudo,
Puro desalento,
Pesado escudo.

Uma distopia,
Alucinação;
Sua covardia,
Foi minha paixão;
Eu sem mais valia,
Na desilusão,
É noite meu dia,
Cinza, solidão.
Não tem terapia
Pro meu coração.

Só, neste abandono
Que você deixou;
Me decepciono,
Nada mais restou;
Como um cão sem dono,
Frio de Moscou,
Me agito sem sono,
No amor que acabou.
Sou papel-carbono
Que você amassou.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

APARTAMENTO ERRADO 
MILTON  MACIEL
 
      Aquela profusão de cabelos rutilantes, que na luz escassa do amanhecer pareciam até ruivos... Ruivos?!!!

 Deu um salto na cama. Seus olhos estacaram ante dois olhos muito azuis, muito lindos, muito esbugalhados:

– Heitor!

– Alice!

– Deus do céu, o que você está fazendo aqui na minha cama?

– Como? O que VOCÊ está fazendo no meu quarto e... Ei, cadê a Helena?

– Ué, tá no apartamento de vocês, é claro...

– Quer dizer...

– Quer dizer que você entrou no meu apartamento, andar errado, seu cretino. Chegou de fogo, se enfiou na minha cama no escuro e, enfim... Céus! você... enfim...

– É. Mas que loucura...

– Safado! Me comeu na marra. Seu traidor!

– Você está louca? Você me agarrou, foi passando a mão, foi... Eu só queria dormir, tava de porre, pô. Não tive culpa.

– Como não teve culpa, seu abusado? Eu pensei que era o Arizinho que tinha voltado antes da viagem. E agora, Meu Deus, o que é que eu faço? 

– Ué... não sei. Acho que o melhor é a gente ficar quieto. Ninguém tem que saber.

– Claro! Só faltava você contar pro prédio inteiro que me comeu. O Arizinho te mata. Ai, ele me mata também! Ai, meu Deus, não me abre essa boca, por caridade!

– Eu, abrir a boca? E a Helena? Ela acaba comigo, vai ser o maior inferno. Vê se não vai me dar uma de Madalena arrependida e acabar contando tudo pra ela mais tarde, numa crise de consciência.

– Ai, Heitor. Você acha que eu sou assim tão retardada?

– Não acho nada. Não sei. Mulher é esquisito. Mas pode ficar fria, que eu...  Pô,fria você?! Você é mulher mais quente que eu já...

– Olha o que você vai falar, seu tarado!

– Tarado, eu?!... Pô, Alice, já esqueceu tudo o que você fez esta noite, no escuro? Quem tava de porre era eu...

– Já falei que pensei que era o Arizinho. Bem, admito que eu estranhei muito. Pensei que tinha acontecido um milagre, o Arizinho tão forte, tão fogoso, sem arriar todo aquele tempo, gemendo e urrando, um espetáculo. Só podia ser por causa da bebida, pensei. O Arizinho nunca bebe. E ele nunca quis saber de fazer aquelas... Ai, que que eu to falando, meu Deus!...

– Aquelas o quê?

– Aquelas... Ah. Você sabe o que eu quero dizer!

– Ah, aquelas... É. Eu até estranhei a maneira que você urrava, parecia outra pessoa.

– ERA outra pessoa, seu cretino! E eu urrava, é? Urrava?

 – É, eu acho que sim, pelo menos foi como eu ouvi ali de baixo.

– Pois ouviu errado, você estava de porre, seu bebum!

– Não urrou então?

– Não, que eu não sou bicho. Tá certo que me excedi nos gritos, não deu pra controlar, nunca antes alguém tinha feito assim tão bem feito comigo. Ai, ai, esquece, eu não disse isso.

– Disse sim, acaba de dizer. Gostou é?

– Não vou responder. Ei, não puxa o meu lençol!

– Pô, você é ruiva total, toda ruivinha, não é só no cabelo. Que lindinha!

– Pára, seu animal! Já disse que não foi por querer. Me dá esse lençol!

– Tá, toma. Mas que é lindinha demais, isso é.

– Lindinha?...

– Mimosa, delicada, ruivinha. Eu nunca tinha visto assim.

– Lindinha, é?...

– Muito!

– Você acha mesmo?

– Acho. A mais linda que eu já vi.

– Verdade? Jura?...

– Juro. Deixa eu ver de novo? Só um pouquinho. Linda demais...

– Só um pouquinho...  Anh...  e você faz aquilo de novo? Só um pouquinho...

CAI O PANO. FIM DO PRIMEIRO ATO, EM RESPEITO A LEITORES(AS) MORALISTAS, INCLUÍDOS AÍ OS FALSOS MORALISTAS, QUE SÃO SEMPRE A MAIORIA ABSOLUTA E NADA SILENCIOSA. (Tanto uns, quanto outros são, pelo geral, OS PIORES!)

domingo, 5 de novembro de 2017

HYDNA DE SCIONE  -  Conto histórico
MILTON MACIEL 

O sacerdote abaixou o braço e os seis auxiliares puxaram as cordas ao mesmo tempo. De sob os panos brancos que as cobriam, surgiram duas verdadeiras obras-primas, as estátuas de Hydna e Scylias, de Scione – os maiores nadadores e mergulhadores de toda a história grega. Era o ano de 480 AC e eles estavam no grande templo de Apolo, em Delphos, para receberem a mais do que merecida homenagem.

Orgulhoso, o pai passou o braço musculoso pela cintura de sua bela e atlética filha de 18 anos e falou, sorridente:

– Um magnífico trabalho, sem dúvida, minha filha. Mas não faz justiça à sua beleza. Você é dez vezes mais bonita do que esse mármore formidável, digno de um Fídias. Acho que só ele teria sido capaz de representar você em todo o seu esplendor.

– Ora, pai, que importância tem isso, quando nosso feito recebe dos Anfictiões uma homenagem de tal envergadura? Por mim, podia ser apenas uma coluna de pedra e eu já estaria mais do que feliz e glorificada.

E, enquanto ali, em frente ao Górgias, sacerdotes e sacerdotisas entoavam hinos e moviam-se ritualisticamente, fazendo a consagração das grandes estátuas, Hydna voltou rapidamente ao passado recente, àquele dia da tempestade destruidora, a bordo de um dos trirremes da frota do rei persa Xerxes. Quando os ventos começaram a fustigar as embarcações e todos os grandes barcos da frota foram rapidamente ancorados à costas do Monte Pélion, Scylias comentou com a filha:

– Xerxes é um louco, mandando fazer esta manobra para o sul, ao longo desta perigosa costa da Eubeia. Era mais do que certo que nos defrontaríamos com alguma grande tempestade como esta que está vindo aí.

– Muito grande, pai?

– Sim, minha filha, arrasadora.

– Então pode ser a nossa grande chance.

– Sim, podemos fugir aos nossos captores durante a tempestade. Eles jamais pensariam que nós somos mais loucos que Xerxes e que podemos pular num mar tão revolto como vai ficar este em mais alguns minutos.

– Ah, mas nós somos, sim, pai. Nós podemos enfrentar qualquer mar, o senhor me ensinou isso desde que eu era criancinha. Não foi à toa que eu passei mais de dez anos de minha vida mergulhando em grandes profundidades e nadando mais de 5 furlongs (12 quilômetros) por dia, sempre em sua companhia.

– Minha menina, minha grande companheira, você é o orgulho do seu pai, a maior nadadora e mergulhadora de toda a Hélade. Agora mesmo, dias atrás, quando mergulhamos para recuperar o tesouro afundado de Xerxes, você demonstrou uma perícia e uma coragem que deixou todos os persas estupefatos.

– Nós DOIS fizemos um trabalho magnífico, pai. E recebemos uma boa parte do ouro recuperado.

– Que não vai nos valer de nada, porque agora somos prisioneiros neste navio. E permaneceremos nessa condição enquanto esta guerra não terminar. E o pior é que tudo indica que vai terminar com Xerxes esmagando toda a Hélade. Só nesta frota existem mais de 200 navios. Como os gregos poderão resistir?

– E pior ainda é que eles já se preparam para a grande invasão por terra, estão concentrados nas Termópilas, depois de terem arrasado o pequeno exército grego que lhes opunha resistência ali e matado o grande Leônidas de Esparta, com seus 300 heróicos espartanos.

– Eram mil e quatrocentos homens, filha, nunca esqueça que também heróicos foram os téspios e os tebanos, que se ofereceram para ficar com os de Esparta, sabendo que teriam morte certa, o preço que pagariam por retardar o avanço dos cem mil persas de Xerxes.

–  Tem razão, pai. Espero que a História não os esqueça. Graças ao sacrifício de todos eles, os gregos tiveram tempo de reunir seus exércitos e preparar a resistência. Mas com a chegada desta frota colossal, como será possível resistir aos persas, meu pai?

– Será totalmente impossível, Hydna. Temos que rezar aos deuses para que esta tempestade provoque danos muito sérios nestes navios deles. Veja, olhe só o tamanho das ondas que estão se aproximando. O dia está virando noite. Ah, que pena que eles tiveram tempo de ancorar solidamente seus trirremes antes da tempestade!

 – Se não estivessem ancorados...

– Ah, filha, se chocariam uns com os outros às dezenas, afundariam em grande número. E os que sobrassem ficariam danificados demais para combater. Ah, se os deuses nos ajudassem!

– Pai: e se nós ajudássemos os deuses?

– Como assim, minha filha?

– Bem. Nós já estamos decididos a pular no mar daqui a um instante e nadar até Artemísia, uns 6 furlongs, mergulhando primeiro, para ficarmos ocultos aos persas e nadando depois. Isso significa deixar todo o nosso ouro aqui, o que não nos importa, não é?

– Certo que não, filha. Mais importante é a liberdade. E a honra: somos gregos e, se logramos escapar, podemos revelar a nossos generais todos os planos dos persas. Só não estou entendendo o que você quer dizer com “ajudarmos os deuses”. Como isso seria possível, se nós é que precisamos de ajuda deles.?

– Ora pai, já que vamos pular nesse mar de agonia, não precisamos ter pressa dentro dele. Não vamos levar nenhum ouro certamente. Mas podemos levar nossas grandes facas de mergulho.

– Por Posseidon, minha menina! Você é um gênio! Sim, nós podemos mergulhar a cortar as cordas de amarra, de âncora, de um grande número desses grandes barcos.

– Nem precisa ser de tantos, pai. Cada um deles que ficar solto neste estreito vai parecer um touro furioso, batendo impiedosamente em muitos outros navios ancorados. E os persas nada poderão fazer. Veja, as primeiras ondas já estão começando a cobrir o convés. É hora de saltar! Vamos pegar as facas longas.

E agora, contemplando sua própria estátua em Delphos, a linda mergulhadora grega pegou carinhosamente a mão de seu pai e mestre. Ante seus olhos semicerrados desfilaram os minutos aparentemente infindáveis em que ela e Scylias mergulhavam e voltavam à tona para respirar, em meio ao mais terrível mar que já haviam enfrentado na vida. E a cada novo mergulho, em meio a uma escuridão quase total, no limite de suas capacidades respiratórias privilegiadas, mais uma grossa corda era cortada por ambos em conjunto.

Os persas, em pânico, não conseguiam entender porque tantos trirremes se soltaram, mas mais de trinta desses enormes barcos estavam agora à deriva, provocando violentos choques estrondosos, esfacelando-se e esfacelando um grande número de outros barcos. Um deles quase apanhou os mergulhadores, esmagando-os contra um barco ancorado. Não fosse a grande experiência de Scylias e ele não teria conseguido avisar Hydna a tempo de mergulharem os dois muito fundo, para escapar do choque iminente.

Mas escaparam. Não só escaparam das vistas dos persas, percorrendo uma grande distância sempre mergulhando, como nadaram na tempestade por mais cinco furlongs até chegarem a Artemísia. Ali a população os recebeu como heróis. Os planos dos persas foram revelados, dando tempo aos gregos de saberem que iam cair numa armadilha, pois outra frota persa avançava do norte para o sul. E Xerxes contava com espremer os navios atenienses entre suas duas frotas.

Mas frota do sul estava agora arrasada! Um único homem e uma única mulher, uma menina de dezoito anos apenas, haviam dado cabo de dezenas e dezenas de trirremes que foram a pique. E os que sobraram flutuando estavam tão danificados que levariam meses para serem recuperados.

Foi somente graças a essa intervenção dessa filha e desse pai heróicos, que a frota grega foi capaz, pouco tempo depois,  de derrotar a armada Norte de Xerxes na grande batalha final de Salamina.

Scylias olhou com ternura para sua menina, tão mais bonita que aquela estátua maravilhosa ali à frente deles, em Delphos. Sim, ela tinha razão. Eles é que tinham ajudado os deuses a ajudarem a Hélade inteira.
                                                             TRIRREME GREGO

domingo, 22 de outubro de 2017

FICÇÃO LITERÁRIA, FICÇÃO DOMINANTE E FICÇÃO DE GÊNERO 
MILTON MACIEL

Quem não é do ramo não tem obrigação alguma de perceber, mas, da mesma forma que na arte musical, existem diferentes manifestações na arte literária. Naquela temos a música erudita, a música popular de alto nível, com melodia e poesia de qualidade e a música tipo povão, de largo consumo e sem maior responsabilidade estética, tanto na melodia, quanto na letra. A disseminação, o consumo e o “sucesso” de cada uma delas dependem do grau de cultura do público consumidor. 

Em termos de música brasileira, especificamente, um breganejo trepidante, cuja letra fale de balada, cerveja e bunda grande, vai ser apresentado e vender (e isso define o “suce$$o”!) muito mais que uma composição de Chico Buarque; e esta, por sua vez, muito mais do que uma composição de Villa Lobos.

Forma-se, de forma muito natural e compreensível, uma pirâmide com a música erudita no topo e a música-povão na base, proporcionalmente ao nível intelectual e cultural das diferentes faixas de público consumidor.

A mesma coisa ocorre com a literatura de ficção, com a ficção literária no topo, mas uma distribuição bem diferente nos outros níveis. Em literatura e, ainda mais especificamente, em termos da realidade do mercado livreiro no mundo, a ficção pode ser dividida em:

Ficção literária, ficção dominante e ficção de gênero

Ficção literária é a de mais alto nível. É muito mais alicerçada no personagens e sua psicologia do que no enredo ou trama. A linguagem é a mais complexa e rebuscada possível, o grau de erudição do autor é máximo. Ele não tem preocupação em atingir o grande público, uma vez que sabe que este não tem nível cultural suficiente. De um modo geral, preocupa-se mais com seus pares, com a crítica acadêmica e com o pequeno nicho de seus leitores especiais. As editoras comerciais de porte não têm preferência por autores novos de ficção literária.

Ficção dominante (mainstream) é aquela que tem mais apelo comercial em um certo momento. É absolutamente episódica e ‘sazonal’. Chega, explode, domina, é imitada, declina e passa. Harry Potter, O Senhor dos Anéis e os vampiros e lobisomens de Crepúsculo são exemplo disso. Em grande parte, recebe o apoio do cinema e o sucesso comercial é tremendo. As grandes editoras sonham o tempo inteiro com essa ficção, pois sabem que é ali que vão ter o maior retorno para o seu investimento.

Ficção de gênero é todo o resto. Entre gêneros principais, seus subgêneros e endosubgêneros, podemos contar mais de 60 possibilidades. A ficção dominante sempre será de um desses gêneros, alçado subitamente ao alto do palco. Em meu livro “A Arte e a técnica do romance (Milton Maciel, IDEL, 2017), da série “Como Escrever Ficção”, eu mostro todos os 62 gêneros e subgêneros mais usuais, explicando um por um. Vou dar aqui apenas UM exemplo de gênero e seus diferentes subgêneros e endogêneros dentro de cada subgênero.

I - Gênero: SUSPENSE
Subgêneros: Mistério, crime e tríler (thriller)

I.1 - Subgênero MISTÉRIO
Predomina o enredo sobre os personagens, a narrativa e o protagonismo envolvem os agentes que atuam do lado da lei

Endosubgêneros do subgênero Mistério:
Sereno – O protagonista não usa violência, apenas sua capacidade de solucionar mistérios, como a Miss Marple, de Agatha Christie.
Policial agente – Aqui o protagonista é um tira ou um detetive particular, que age de forma heroica e com uso de violência quando necessário
Policial equipe – O Mistério é resolvido por uma equipe multidisciplinar de policiais, como na série CSI e outras.
Médico, científico ou forense – A solução depende do conhecimento de médicos, cientistas ou patologistas forenses, algo fora do alcance de policiais normais.
Juri – Uma forma clássica de resolver o mistério através da atuação brilhante de advogados e promotores muito talentosos.
Histórico – Aqui o crime praticado, ou o mistério histórico ocorreram no passado e os envolvidos, vítimas, perpetradores e testemunhas já estão todos mortos. Protagonistas vão desencavar a verdade através de evidências e documentos que são resgatados pelos protagonistas e analisados por peritos. É um dos mais promissores filões do subgênero Mistério atualmente.

I.2 - Subgênero: CRIME
Predomina o enredo, mas aqui a narrativa e o protagonismo são, via de regra, dos próprios criminosos, como em “O Chefão”, de Mário Puzzo  ou em “Lúcio Flávio , o passageiro da agonia”, de José Louzeiro. Não existe Mistério, sabe-se quem são os criminosos desde o início.

O subgênero tem um único Endosubgênero estabelecido até o momento: o Noir. Nele o protagonista vive na fronteira entre a lei e a marginalidade, nunca se sabe se ele vai resolver ou cometer um crime e a grande surpresa final consiste exatamente em sua decisão e suas consequências.

I.3 - Subgênero TRÍLER (thriller)
Neste subgênero, de total predomínio do enredo, o suspense combina-se com ação, ritmo acelerado, surpresas, sustos, perseguições, grandes riscos, violência. Thrill, em inglês, quer dizer excitação e o thriller, aportuguesado já para tríler, tem que ser excitante. Às vezes pode chegar até mesmo à beira da porta de outro gênero, o terror.

Endosubgêneros do subgênero Tríler:
Psicológico
Político
Sobrenatural
Tecnológico (techno-thriller)
Erótico 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

É POSSÍVEL ENSINAR ALGUÉM A ESCREVER BEM?
MILTON MACIEL

Muitos apregoam aos quatro ventos que não, abrindo exceção somente para os casos em que se usa um caderno de caligrafia, para melhorar a letra cursiva desse alguém. Como é óbvio que nossa intenção aqui é bem outra, nada tendo a ver com letra cursiva, vou dar minha resposta:

É possível, SIM!

Você só não pode ensinar, a rigor, uma pessoa a escrever melhor, porque melhor é superlativo de bom e você não ensina alguém a escrever mais bom, ensina a escrever mais bem. Mas esta construção fica imperfeita, porque implica em que essa pessoa já escreve bem e você a ensina a escrever mais bem ainda.

Voltemos, portanto, ao conceito inicial: escrever bem. Cujo oposto óbvio é escrever mal. E a primeira pergunta que coloco aqui é seguinte:

Alguém pode escrever bem, sem estudar a arte e a técnica da escrita?

Minha resposta é SIM, um acachapante sim.

Muitas pessoas possuem esse dom inato e, via de regra, porque intensas leitoras – donas, portanto, de um alentado vocabulário e de um conhecimento quase intuitivo de gramática prática – são capazes de escrever corretamente. Se conseguem completar esse dom mais básico com uma capacidade de observação/imaginação prodigiosas, podem chegar também ao cerne mesmo do ato de escrever, que é a concepção da IDEIA original sobre a qual vão escrever bem. Estas são as pessoas qualificadas como “diamantes em bruto”. Se chegarem a ser lapidadas, por esforço próprio de estudo ou com a ajuda de outros, viram gênios da literatura.

Só que tem uma coisa: os “diamantes em bruto” são exceção absoluta, não são a regra geral. O engraçado é que, de um modo geral, quase todos os principiantes se sentem diamantes previamente polidos, gênios em potencial, que aqueles cretinos dos revisores, editoradores e editores não sabem reconhecer, iluminados que não precisam aprender e praticar nada sobre as técnicas de sua profissão, as quais, obviamente, já nasceram sabendo!

Futebol e música

Para entender melhor esse processo de lapidação a que me refiro, proponho fazer uma pequena digressão pelos campos do futebol e da música. Comecemos, para arrasar, logo pelo rei do futebol: Pelé, o gênio da bola. Todos tendem a achar que Pelé foi um caso único no mundo, um prodígio, porque...  nasceu pronto! Bem poucos sabem que o menino Gasolina, 15 anos, moleque de recados dos jogadores adultos do Santos F. C., deu um duro danado nos treinamentos, tornando-se em pouco tempo o mais aplicado de todos, aquele que continuava em campo quando todos já tinham ido para casa e ficava sozinho no estádio apagado, treinando dribles e batidas de faltas, sob a escassa luz esparsa da noite da cidade, apoiada ocasionalmente pela benevolência da lua cheia.

Seu pai, Dondinho, que havia sido um bom jogador profissional de futebol, reconheceu muito cedo o talento extraordinário do filho. E, por isso mesmo, não deixava o moleque ficar usando seu dom só nas inúmeras peladas com os outros moleques, onde ele se divertia e se destacava. O pai obrigava o filho criança a fazer contínuos treinamentos e Pelé adulto relembra o quanto detestava isso. E que chegava mesmo a chorar, especialmente quando o pai levou mais de um ano forçando-o a treinar horas por dia, todos os dias, no corredor de casa, a chutar com o pé esquerdo até não aguentar mais de dor. Até que um dia, finalmente, o menino conseguiu fazê-lo sempre; e tão bem quanto fazia com o pé direito intuitivamente.

O maior talento inato foi também aquele que treinou MUITO MAIS do que os outros. O diamante em bruto foi lapidado à perfeição, até a mais ínfima das suas facetas. Esse é Pelé!

Pense agora em músicos, mais especificamente em COMPOSITORES. Lembre-se de vários deles, populares e eruditos. Traga-os de volta à sua tela mental, veja-os apresentando-se ao público. São diversos, mas a esta altura sua memória deverá ter detectado algo que todos eles têm em comum. Viu?

Pois é, com raríssimas exceções, quando você os relembra em suas apresentações, o que eles têm em comum é um INSTRUMENTO nas mãos. João Gilberto, Toquinho, Chico e Caetano têm um violão; Tom Jobim, Taiguara, Guilherme Arantes e Heitor Villa-Lobos, um piano.

Qualquer um deles poderia ter composto assobiando ou cantando, acompanhando-se com uma caixa de fósforos. Mas... você acha que teriam chegado tão longe quanto chegaram?

Caetano diz, no final de sua “Tigresa”:
“... E eu corri pro violão, num lamento,
E a manhã nasceu azul...
Como é bom poder tocar um instrumento.”

Pois é, o domínio do instrumento é a TÉCNICA, sejam os dedos no violão, sejam os dedos e os pés no piano, sejam os pés, as pernas, as mãos e a cabeça no futebol. Eles precisam ser capazes de obedecer com perfeição aquilo que a mente do artista da música ou da bola quer expressar.

Um pianista clássico ensaia em média 8 horas por dia. Uma bailarina também. Um jogador de futebol idem.

Vai daí a primeira recomendação: Você quer ser um grande escritor? Pois bem, ensaie 8 horas por dia. Como?! Escrever oito horas por dia?!!

Não, eu usei o verbo ensaiar! E o principal trabalho do escritor não é escrever. É LER.

Ler como um leitor e ler como um escritor. E ler sobre os segredos da sua profissão. Ler e estudar os processos de escrita. E escrever aplicando o que você absorve por osmose ao ler bons colegas; e o que você absorve por esforço, ao estudar as técnicas da nossa arte maior.

José Saramago, prêmio Nobel,
descreveu assim sua rotina a uma repórter:

– Escrevo todos os dias.

– Fantástico! Quantas páginas? – perguntou a moça, antegozando a resposta sobre as dezenas de páginas que o gênio lavraria num único dia.

– Uma. Ou duas, no máximo.

– Só!!! – escandalizou-se a moça – E o resto do tempo, o que o senhor faz, então?

– O resto todo do dia, eu LEIO. Senão, como é que eu seria um bom escritor?

Já Stephen King recomenda uma rotina diária mínima de seis horas de trabalho. Escrevendo o tempo necessário para gerar 10 páginas. E o resto do tempo todo dedicado à leitura. Todo santo dia! Leitura de, pelo menos, 80 livros por ano.

Faça aí suas contas:

Escrevendo uma única página por dia (10 minutos a meia hora, no máximo), todos os dias, dá mais de 360 páginas para revisar, editorar e publicar como um livro. Ou seja, um a dois livros POR ANO!

Escrevendo 10 páginas por dia (1 hora e meia a 5 horas – in extremis!), dá mais de 3600 páginas por ano. Um livro de 300 páginas POR MÊS! Ou, folgadamente, um livrão com algo como 900 páginas para você ir cortando na revisão e publicar com 600 páginas no fim, a la Stephen King. Isso a cada TRES MESES.

Logo, ESCREVER não é a parte difícil da profissão de escritor. ESCREVER BEM é que é.  Porque tempo você tem de sobra para ser um Saramago.

Mas, como no piano ou na flauta, só precisamos aprender COMO se toca o instrumento. Mais: como se toca BEM o instrumento. E isso é perfeitamente possível. LEVA ANOS, é bem verdade. Muitos, se você só faz exercícios e toca só de vez em quando. Muito menos, se você toca todo santo dia por paixão, horas a fio, e aprende um monte de músicas novas por puro prazer, puro deleite.

Para ser um bom escritor, você tem que fazer exatamente a mesma coisa: tocar o seu teclado ou caneta todos os dias, horas a fio, por puro deleite, puro prazer. Então escrever não cansa, não desanima, não satura. Pelo contrário, entusiasma, anima, você tem que se obrigar a parar porque é hora de comer, porque é hora de dormir, porque é hora de trabalhar em outra coisa ou lugar, se tal ainda for o seu caso.

E o resto do tempo você LÊ. Por puro prazer, por puro deleite, por duro – e delicioso – aprendizado. É como aprender músicas novas no piano.

(Adaptado de “A ARTE E A TECNICA DO ROMANCE” – Milton Maciel, IDEL, 2017, 280 pg)

domingo, 15 de outubro de 2017

O OLHAR DA PROFESSORA   
MILTON MACIEL  (Como posto aqui em todo 15 de outubro)

Tristonho e angustiado, o olhar da professora
Contempla, entre lágrimas, a visão assustadora
Das contas sobre a cama, abertas como um leque.
Ao lado, para honrá-las, o bisonho contra-cheque!

 (Um preito de gratidão a todas as heroínas e heróis que, através da mais dura realidade diária, imolam suas vidas na ara de sacrifício do ensino público brasileiro, construindo, às custas de si mesmos, a sobrevivência e o futuro de um país em que, mesquinhos e ingratos, governadores e prefeitos insistem covardemente em lhes seguir voltando as costas):

O OLHAR DA PROFESSORA

Tristonho e angustiado, o olhar da professora
Contempla, entre lágrimas, a visão assustadora
Das contas sobre a cama, abertas como um leque.
Ao lado, para honrá-las, o bisonho contra-cheque!

As pilhas a subir:
São roupas pra passar,
São louças pra lavar,
Provas pra corrigir!
E filhos a exigir,
Marido a reclamar,
Ninguém para ajudar,
Quem pode resistir?!

Alunos revoltosos, preguiçosos, barulhentos,
E, de uns anos para cá, cada vez mais violentos.
A sala de aula pobre, desprovida, abandonada,
E com risco de ser, mais uma vez, interditada.

Tristonho e angustiado, o olhar da professora,
Contempla, entre lágrimas, a visão assustadora
Da escola que se afunda, em decadência lenta,
Nas mãos da gestão pública, inepta e/ou fraudulenta.
E pensa no absurdo, o paradoxo tão profundo:
Economia: Sexta. Educação: Terceiro... Mundo!

O que fazer, então,
Se essa é sua profissão?
Se pra ganhar a vida
Foi essa a escolhida
Por sua vocação?
E se somente ela,
Em que pese a mazela,
Lhe fala ao coração?

Então, mais uma vez, o olhar da professora,
Procura ver além da imagem assustadora.

Tem a vida pra levar,
Tem filhos pra criar,
Não pode desistir,
Forçoso é resistir.
Tem que continuar:
Tantos a precisar
Da sua resistência,
Da sua eficiência
Da sua devoção,
Da sua imolação!

E, cheio de esperança, o olhar da professora,
Mais uma vez contempla a visão alentadora:
Um futuro diferente, em que outras criaturas
Poderão levar em frente jornadas menos duras:

As novas professoras, de uma nova geração
De crianças, tendo enfim, no Brasil uma Nação.

Ela compreende que não sonha, apenas, tal futuro,
Mas que o constrói, a cada dia, com seu trabalho duro.
E que, para educar, ela não mede sacrifício,
Pois essa é a dor e a glória do seu Sagrado Ofício.  (MM)