sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A GUERRA DE JACQUES - 1a. edição
MILTON MACIEL - idel, 2017, 408 pg

O "Jacques" começou para ser só mais um dos muitos livros que escrevo como “ghost writer”, escritor fantasma, onde meu nome não aparece como autor. Mas os clientes, lá pela metade do trabalho, gostaram tanto que me pediram para que eu figurasse como co-autor.

Foi memorável. Estudei e pesquisei como um louco, li 12 livros escritos por pilotos e outros ex-combatentes em um mês, deixei o Dr. Google enfarado de tanto me ver: a história se passava nos últimos anos da 2ª Guerra Mundial e eu ignorava muitos dos seus horrores! Estudei mais de 50 mapas, assisti dezenas de filmes e vídeos.

Então comecei a escrever. Saltei de trens que, atravessando Bélgica e Holanda, levavam prisioneiros belgas e franceses para o trabalho escravo na Alemanha. Bombardeei cidades inglesas e alemãs, destruí incontáveis Stukas, Spitfires, Messerschmitts e fortalezas voadores B-29 em tremendas batalhas aéreas. Esmaguei Londres, Bruxelas e Antuérpia com bombas voadoras V1 e V2. Destruí altos fornos, aciarias, estradas, pontes, ferrovias, represas, botei abaixo hospitais lotados, escolas, edifícios, casas humildes, dizimei exércitos e populações civis inocentes aos milhares e milhares. Sem piedade. Porque EU era a Guerra!

Mas, no fim, fui derrotado, porque a trama é uma história de AMOR. Do amor entre um rapaz e uma moça da Bélgica que, unidos, vencem dez vezes a morte e mil vezes a desesperança; em Bruxelas, em Essen, Alemanha, em Paris, França, a bordo de um navio mercante no Atlântico e na nova pátria que os acolheu amorosamente, por onde entraram pelo Rio de Janeiro para irem viver todo o resto de suas longas vidas na São Paulo da garoa. A história é baseada em pessoas e fatos da vida real! Ela me foi encomendada pelos filhos brasileiros, hoje sexagenários, desse casal de heróis da Resistência Belga.

Agora vou para aquele período de umbral, em que sinto uma falta brutal de Jacques e de Loulou, de Phillipe Delmas e Émile Heide, de Lucien, Mireille, Jean Pierre Tissot, do Coronel Parucker da Wermacht, do cabo Dieter Maluco da SS, de Copacabana, do Zé Carioca, do cônsul belga em São Paulo, Max Weckx, que ensinou a Jacques porque se deve amar o Brasil. Vivi meses com eles todos os dias, tornaram-se parte de mim. Ou eu, deles. Vou ficar muitos dias sem poder criar personagens novos, porque estou ainda em íntima comunhão com os de Jacques Rosen.

É um período muito estranho esse. Assisti à gravação de uma entrevista de Clarice Lispector, aos seus 56 anos (faleceria um ano depois), em que ela dizia que estava MORTA, que só voltava a viver quando começava a escrever de novo. Sei muito bem o que ela quis dizer. Uma parte de nós morre junto com o fim da nossa história.

Mas, felizmente, renasce depois, quando novos personagens começam a nascer ainda hesitantes dos nossos dedos aflitos nos teclados, para encenarem novas histórias que nos levarão novamente a viver, florescer e morrer, ad infinitum, até o fim da nossa finitude.
COMO É CARO SER MULHER - 2a. edição
MILTON MACIEL, IDEL, 2017, 200 pg

Este livro resultou de pesquisas e estudos feitos pelo autor nos Estados Unidos, onde residia, em 2012 e 2013 e no Brasil em 2015 e 2106. Mostra como é tão mais difícil para uma mulher conseguir poupar dinheiro para garantir sua tranquilidade futura. Isso porque ela se vê obrigada a gastar de 2 a 3 vezes mais do que um homem ao longo de sua vida. 

Existem causas biológicas, causas comportamentais e causas mercadológicas que se juntam para tornar muito mais cara a vida de uma mulher. Grande parte das mulheres mais jovens não percebem a armadilha em que estão aprisionadas. Os homens, em geral, não têm a menor ideia disso. Acham que as mulheres gastam demais com roupas, cosméticos e cabelos, porque são umas vaidosas destrambelhadas. Nada pode ser menos verdadeiro!

Há despesas imensas, de causa biológica somente, que um homem nunca terá. O corpo de uma mulher custa-lhe demais durante a vida. E os gastos com roupas e cosméticos não são opcionais, são forçados por todo um sistema sociocultural e econômico, que se nutre fundamentalmente do trabalho e do dinheiro da mulher. Além disso, o mercado paga menos para a mulher do que para o homem, obriga-a a jornada dupla de trabalho e cobra mais dela do que dele pelos mesmos produtos e serviços.

Ao longo de uma “vida útil de consumo” de mais de 55 anos, uma mulher trabalha muito mais, ganha muito menos, gasta muito mais e dura muito mais anos do que um homem. 

Por causa disso, se ela não aprender a reconhecer as armadilhas que a cercam e não conseguir poupar reservas para se proteger, pode acabar muito mal, justamente quando deveria passar a usufruir do justo repouso da guerreira, na melhor fase da segunda metade de sua vida. Os números e os fatos que o livro apresenta têm a finalidade de mostrar essas duras verdades, usando bastante humor para ajudar a “rir pra não chorar”. De raiva!

domingo, 26 de novembro de 2017

MUNDINHO E RAIMUNDO NONATO  
MILTON MACIEL   

De longe o menino já escutou os gritos e o choro. Era mainha e eram as crianças também. Lasquera, que disgraça será que assucedeu-se?

Saltou do jegue na soleira da porta e entrou correndo. Dentro de casa, a mãe estava acocorada na sala de chão batido, aos gritos:

– Valha-me Deus Nossa Sinhora! Acuda minha filha, num dexe qui a disgraçera acunteça. Tenha dó da minha bichinha. Minha filha inocente... Deus Nossa Sinhora!

A mulher tinha o rosto inchado e o lábio inferior sangrando. Era evidente que aquele desgraçado tinha batido nela de novo. A caro custo, Mundinho conseguiu entender o que a mãe dizia, entre soluços e rogos:

– Ele levô sua irmã, meu filho. Dizque vai vendê ela pro bandido do Naldão, dizque que Naldão vai dá um bom dinhero pela bichinha. Dizque vai levá ela pra vendê pro fiho do coronel Justino.

– Vendê minha irmã, mainha?!

– Isso mesmo, meu filho. Dizque o home tá na fazenda do pai de visita, é aquele qui é adevogado lá no Recife. Dizque ele tá comprando minina novinha, pra botá na cama mais ele. Uma disgracera. I quem é qui pode cum um filho do Coronel?

– Mas painho foi vendê a própria filha dele? É isso?

– É. Eu supliquei, a Mariinha também, qui num quiria i. Mas num diantô. Aí seu pai bateu em nós duas i levô sua maninha pela corda, amarrada pelos pulso, qui nem bicho. Falô qui ela já tem 13 ano, qui é idade di trabaiá pra ajudá nas dispesa, qui o que ele vai ganhá vendendo ela é mais do que pode tirá num ano intero di vendê rapadura i melado.

– Arre égua, mainha! Mai eu num vô dexá essa disgracera acuntecê cum maninha. Pra qui lado eles foram?

– Seu pai saiu pro lados das venda, mais Mariinha. Faiz um tempão. Ainda arrenegô qui ocê foi montado no Tisnado pra iscola, qui ele ia tê qui andá toda essa lonjura a pé, mais a minina. Foi intregá ela pra Naldão. Qui Deus Nossa Sinhora, num dexe, num dexe!

Mundinho correu para fora, saltou de novo em Tisnado e tocou a galope em direção à picada das vendas. Após alguns minutos, viu ao longe que o pai já estava com Naldão. O menino parou o jegue atrás de uns mandacarus e ficou observando. Viu quando o pai recebeu e contou o que parecia ser dinheiro e, em seguida, transferiu a ponta da corda para o comprador. Maninha tinha sido vendida que nem boi!

O velho Bastião seguiu contente em direção à venda de Nicolau, que ficava a uns três quilômetros dali. Já Naldão, puxando e empurrando Mariinha com alguma violência, tomou a estrada de terra em direção oposta. Taí: ia levar maninha diretamente para a fazenda de Coronel Justino.

Mundinho esperou que o pai desaparecesse na estrada e começou a seguir Naldão e Mariinha bem devagar, a uma boa distância. Mas teve que acelerar o passo do jegue quando percebeu que o bandido estava passando a corda ao redor de um mourão de cerca, prendendo Mariinha no aperto. Então o homem levantou a saia da menina e começou a passar as mãos nela.

O menino viu tudo vermelho à sua frente e arremeteu a toda velocidade para cima do homem, que, quando escutou o tropel de Tisnado, firmou os olhos para entender o que estava acontecendo e quem era aquele doido a galope pela estrada. Perdeu muito tempo com isso, o suficiente para que Mundinho se desviasse de repente,  chegasse até ele e lhe desferisse um tremendo golpe com a única arma que tinha à mão: sua sacola de pano, onde levava meia dúzia de livros de escola.

Atingido na cabeça, mais por causa da muita força do avanço do jegue do que por causa da pouca força do braço do menino, o jagunço rolou por terra, meio tonto. Quando começou a levantar, Mundinho já estava em cima dele de novo. Desta vez o garoto pôde ouvir, nitidamente, o estrondo da batida do joelho do jegue na cabeça de Naldão, que rolou uns dois metros, e se estatelou no chão, já totalmente desacordado.

Agora é ele ou nós! – pensou o menino. E fez Tisnado se afastar o bastante para voltar a galope para o ponto onde o homem estava caído. Na primeira vez, o jegue pulou sobre o corpo. Mas Mundinho repetiu a manobra e, nesta segunda vez, os cascos do animal pisotearam o corpo do bandido. Mundinho repetiu diversas vezes a manobra, até ter certeza que o afamado Naldão, jagunço de muitas mortes nas costas, tinha ido acertar as contas com seu patrão, o Coisa Ruim, lá embaixo.

Saltou do jegue, desamarrou Mariinha, que chorava e tremia apavorada, e a fez montar no animal. Examinou cuidadosamente os pertences do jagunço. Encontrou uma adaga e um garrucha de dois tiros, municiada. Tinha também material para mais três tiros. Colocou tudo em seu saco de livros. Depois montou ele também e tomou o atalho para a vila, por dentro dos pastos de Seu Eurico Benevides. Sabia muito bem onde deixar maninha.

Meia hora depois, os dois irmãos foram ouvidos por um atônito Padre Torelli. O velho sacerdote ficou indignado e enfurecido, mal podendo acreditar que o pai daquelas crianças tivesse sido capaz de tal vileza. Mas prometeu tomar conta da menina, levando-a para a casa das irmãs Olivença, até que as coisas se esclarecessem. Mundinho podia voltar para casa tranquilo quanto à segurança de sua irmã. Nunca mais o padre permitiria que aquele pai desnaturado pusesse as mãos naquela filha.

O padre estranhou que as patas do jegue e o seu ventre mostrassem manchas de sangue, mas Mundinho disse apenas que ele pedisse explicações para Mariinha. E tornou a cavalgar seu fiel Tisnado de volta para casa. Agora, mais do que nunca, sua mãe e irmãos iam precisar dele. Tinha quatorze anos completos e, tudo indicava, acabara de matar um homem. E não qualquer homem, mas um bandido perigoso, com vários assassinatos cometidos, um matador de aluguel. Ele agora era Raimundo Nonato da Silva, também ele um cabra macho, matador de homem.

Estava na hora de deixar de ser criança. A vida o tinha obrigado a virar homem feito nesta tarde. Então estava também na hora de enfrentar aquele outro bandido, que era o velho Bastião, seu próprio pai. Era chegado o tempo de por um fim nos seus desmandos e nas suas violências contra a família. Mundinho podia ter ficado amedrontado até hoje, tanto tinha ele apanhado daquele pai desde bebezinho, tanto tinha ele visto a mãe e os outros irmãos serem barbaramente espancados também.

Mas agora ele não era mais Mundinho. Era Raimundo Nonato da Silva, cabra macho e matador de bandido. Agora o velho Bastião ia ter que respeitá-lo e ele não deixaria que o maldito batesse em mais ninguém de sua família. Palavra de Raimundo Nonato!

Quando o velho Bastião chegou da venda, feliz da vida com a dinheirama no bolso e com os cornos cheios de cachaça como sempre, entrou em casa antegozando a surra que ia dar na mulher. Sempre batia nela quando chegava bêbado, mas  os moleques corriam de medo, quase nunca podia pegar um daqueles porcarias de jeito. Covardes!

Mas, quando chegou na sala, quem estava a espera dele era Raimundo Nonato da Silva. O velho, de fogo, deu um empurrão no moleque Mundinho e foi em busca da mulher, que estava na cozinha. Já chegou batendo. Deu só um tapa, porém. Em seguida sentiu uma dor horrorosa nas costas e teve que se voltar: o filho acabava de lhe vibrar uma terrível pancada com a pá de mexer o tacho de melado.

Velho Bastião ficou possesso, com o atrevimento e com a dor que lhe desconjuntava os ossos. E partiu para cima do garoto:

– Eu vô matá ocê, seu desabusado! – e soltou um dos seus terríveis murros para acertar a cara do moleque.

Mas o menino, estranhamente, não estava chorando e suplicando para não apanhar. Estava tranquilo, com um olhar frio e penetrante, desafiador mesmo, que o velho Bastião nunca tinha visto naquele filho. Eram os olhos experientes do matador Raimundo Nonato.

E este agora era um homem feito. Esquivou-se  agilmente do murro e, para surpresa total do velho Bastião, contra-atacou com uma saraivada de socos fulminantes. O menino estava possesso, batia com uma raiva acumulada durante 14 anos. Batia sem parar. Velho Bastião não tinha como se defender daqueles golpes e acabou tomando uma enorme surra, apanhou durante mais de cinco minutos. No fim ficou enrolado no chão, defendendo o rosto com as duas mãos e esperando a saraivada de pontapés que ia levar na barriga e nas costelas. Mas Raimundo Nonato da Silva não fez nada disso. Apenas falou:

– Se eu fosse covarde qui nem ocê, véio mardito, quebrava ocê a pontapé agora, como ocê sempre fez cum nóis, seu nojento. Mais eu num sô covarde qui nem ocê. Si já cansô di apanhá, se alevanta do chão e sai daqui, antes qui eu perca a cabeça i comece a le disancá di novo.

Para reforçar, apanhou do chão a pá do tacho de melado. E completou:

– Di hoje em diante, fique sabendo qui num tenho mais medo di ocê. I é  bom qui ocê tenha medo di mim. Porque si ocê levantá essa mão suja otra vez pra batê em mainha o nas criança, eu acabo com ocê. Acabo, le mato, compreendeu?

Velho Bastião levantou do chão com dificuldade e esgueirou-se para o lado de fora da casa. Sentou num banco do alpendre e ficou horas ali, pensando. O que será que tinha acontecido com aquele moleque, até ontem um covarde como os outros, que apanhava berrando e suplicando? De onde ele tinha tirado toda aquela força? A verdade é que o rapaz tinha mesmo crescido, estava praticamente da mesma altura que ele, mas era magro e franzino. Mas, de qualquer forma, aquilo não podia ficar assim. Aquela casa era a casa dele, era o seu terreiro e ali só podia cantar um único galo.

O velho esqueceu por um momento das dores e da humilhação, quando levou a mão ao bolso e retirou dali o maço com os mil e duzentos reais. Belo preço por um cabaço, apesar de que o bandido do Naldão devia ter mentido e ficado com um bom naco para ele também. Mas o filho do Coronel, aquele advogado gorducho e incompetente lá da capital, era mesmo viciado em tirar cabaço. Se soubesse disso, tinha ido lhe oferecer a menina muito antes, diretamente, sem precisar repartir nada com o patife do Naldão. A essas horas o safado devia estar fazendo um bom uso da sua parte da dinheirama.

Mas não tinha importância, ele tinha mais duas meninas em casa. Estavam muito novinhas, é verdade, mas com aquele doutorzinho da cidade pagando bem daquele jeito, era só uma questão de mais um par de anos e já podia negociar a primeira delas. E, um ano depois, vendia a terceira. Eita negócio bão! Se soubesse disso, tinha se dedicado a produzir filhas em quantidade e, não, rapadura, melado e cachaça. Até porque a pouca cachaça que ele fazia, ele mesmo se encarregava de consumir, toda ela, ao longo do ano.

Mas aí seu cenho franziu-se outra vez: Maldito moleque! Tinha que dar um jeito nele. E tinha que ser essa noite mesmo. Velho Bastião esperou que todos os candeeiros da noite se apagassem. Entrou sorrateiramente em casa e viu que todos já estavam deitados. A mulher e as crianças no quarto. O moleque, em sua enxerga, armada no chão da sala, ao pé da cozinha. Mariinha era agora uma ausência, certamente estava esperneando essa noite, conhecendo pela primeira vez o que era estrovenga de macho. Problema dela! Já tinha idade. Mulher só servia pra isso mesmo: abrir as pernas pra dar, abrir as pernas pra parir e, de resto, trabalhar muito para servir o homem que fosse o seu dono.

Mas o moleque desgraçado estava dormindo ali à sua frente, de cabeça para baixo, um cabeção tão grande como ele nunca tinha reparado. Lá fora fazia lua cheia e a visibilidade dentro de casa era melhor que a escuridão plena. Então o velho não teve mais dúvidas. Foi até a parede, retirou o facão da bainha e se aproximou do insolente que dormia agora a sono solto. Viu  o cabeção que sobressaia sob o lençol em que o moleque se enrolava sempre para dormir, fizesse o calor que fizesse. Calculou direito a direção e a força do golpe e desceu o braço com toda velocidade em direção à cabeça, tentando encontrar o pescoço com a lâmina.

Estranhamente, o que viu foi algo parecido com uma bola que pulou de dentro do lençol e quicou no chão. Imediatamente, de trás da cortina que servia de porta para a cozinha, o velho viu um relâmpago de luz e um trovão entrou-lhe pelos ouvidos. Junto com ele, entrou-lhe no peito uma bala de garrucha.

O velho caiu no chão, estrebuchando, mas ainda lúcido para ver que o moleque acendia um candeeiro e se aproximava dele com uma garrucha na mão. E ainda conseguiu entender, antes que tudo ficasse para ele definitivamente escuro, como escura era sua alma, o que o menino dizia:

– Eu podia perdoá tudo em ocê um dia, quem sabe. Quem sabe até ocê, meu pai, tê tentado me matá. Mas eu nunca que le perdôo o que fez com minha irmã. Por isso, ocê morre agora.

E disparou o segundo tiro à queima roupa.

A mãe e as crianças chegaram na sala e se depararam com o ato final. O velho ainda tinha o facão na mão. No chão, a velha bola de futebol dos meninos estava encostada no suporte da talha de água.

– Mainha, eu achei que esse mardito ia querê mi matá mesmo. E armei um eu falso, com um cobertor i a bola di futebol como cabeça. Cobri cum o lençol. E ele, no escuro, achou que era eu. E, como oçês pode vê, tentou cortar fora a minha cabeça. É o segundo bandido qui eu mando pro inferno hoje. Agora só farta mais um.

– Como assim, meu filho, mais um? Porque ocê fala em segundo bandido? E qual é esse mais um? Sua mainha num tá entendendo é nada.

– E nem carece di intendê agora, mainha. Agora eu já posso le dizê qui eu num dexei o bandido do Naldão levá maninha cum ele. Eu matei ele com a ajuda de Tisnado. Depois Mariinha le conta como foi, qui eu vô parti agora, pra buscá ela pra casa amanhã cedinho. Deixei maninha cum Padre Torelli, ela tá bem. Agora ocê manda os minino buscá cumpadre Inácio no rancho dele, conta qui eu matei o velho Bastião i conta por que. Ele vai sabê o qui fazê, inclusive cum puliça i tudo. Mas agora eu tenho que i, mainha.

E Raimundo Nonato da Silva, cabra macho e matador, matador de dois bandidos, um o seu próprio pai, montou Tisnado, o fiel Tisnado, e seguiu noite adentro, em direção à vila. Amanhã, quando Padre Torelli abrisse a igreja para a missa das seis, teria uma surpresa. Ele e Tisnado estariam ali para buscar maninha. E esta ficaria aliviada quando soubesse que o velho Bastião nunca mais poderia vendê-la. Mas não contaria nada a Padre Torelli sobre a morte do pai. Não queria perder tempo, nem queria que o padre, com boas intenções, acabasse atrapalhando sua terceira missão. Tinha que liquidar o terceiro bandido. Depois, seria o que Deus quisesse. Que os homens fizessem com ele o que quisessem, também. Mas sua maninha e sua mainha estariam para sempre livres de perigo, livres de bandidos. E isso era uma bênção para a alminha de Mundinho, que amava demais aquela duas mulheres.

Às dez da manhã, Mariinha entrava triunfante em casa. No galpão da casa de compadre Inácio, era feita a sentinela do velho Bastião Silva. Mas ali não tinha ninguém. Só três velhas carpideiras, que cobraram adiantado, choravam e faziam suas ladainhas com esmero profissional. Pagos também tiveram que ser os dois homens que levaram o corpo na rede para o cemitério do povoado. Ninguém mais quis saber de acompanhar o cortejo do homem que tinha vendido a filha e tentado matar o filho.

O menino e seu jegue tiveram outra vez uma curta estada em casa. Seu Inácio confirmou que se encarregava de tudo, seu genro era sargento da polícia militar, ia dar um jeito. Iam livrar a cara do garoto. Então o menino se despediu com um abraço apertado em mainha e outro mais apertado ainda em Mariinha. Elas não sabiam, mas, para ele, era uma despedida. Dentro de poucas horas, o futuro iria se fechar para ele. Mas Mariinha não precisaria nunca mais temer o terceiro bandido.

Horas depois, duas e meia da tarde, o menino Mundinho apeava do resistente Tisnado, à entrada da casa grande da fazenda de Coronel Justino. Um recado urgente de Naldão pro Dr. Amâncio, uma encomenda do doutor que vai demorar mais umas horas.

O doutor Amâncio chegou sonolento na sala, onde o menino esperava. Não havia mais ninguém na casa. O advogado tinha sido perturbado em sua sesta, estava de mau humor. Foi descontando no moleque:

– Então, seu porqueira, o que aquele idiota do Naldão fez que não me trouxe a minha garotinha? Eu paguei bem, a pequena é bonitinha mesmo. Qual é o recado dele, afinal?

– Este aqui.

Raimundo Nonato da Silva retirou da sacola de livros a garrucha de Naldão. Recarregada, perfeita. Olhou demoradamente, com olhos serenos, dentro dos olhos arregalados do homem gordo. Então o terceiro bandido rolou por terra com dois tiros. Missão cumprida. Ninguém tinha ouvido nada, percebido nada na casa vazia.

O rapaz voltou a montar em Tisnado e os dois partiram em direção ao futuro. Qual futuro? Mundinho não sabia. Raimundo Nonato não se importava!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

ABANDONO – Toada 
MILTON MACIEL (letra e música)

Um ouvido atento,
Suspiro agudo,
O ressentimento
Travando tudo;
Aqui, ao relento,
Soluço mudo,
Um exaurimento,
Estro desnudo,
Puro desalento,
Pesado escudo.

Uma distopia,
Alucinação;
Sua covardia,
Foi minha paixão;
Eu sem mais valia,
Na desilusão,
É noite meu dia,
Cinza, solidão.
Não tem terapia
Pro meu coração.

Só, neste abandono
Que você deixou;
Me decepciono,
Nada mais restou;
Como um cão sem dono,
Frio de Moscou,
Me agito sem sono,
No amor que acabou.
Sou papel-carbono
Que você amassou.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

APARTAMENTO ERRADO 
MILTON  MACIEL
 
      Aquela profusão de cabelos rutilantes, que na luz escassa do amanhecer pareciam até ruivos... Ruivos?!!!

 Deu um salto na cama. Seus olhos estacaram ante dois olhos muito azuis, muito lindos, muito esbugalhados:

– Heitor!

– Alice!

– Deus do céu, o que você está fazendo aqui na minha cama?

– Como? O que VOCÊ está fazendo no meu quarto e... Ei, cadê a Helena?

– Ué, tá no apartamento de vocês, é claro...

– Quer dizer...

– Quer dizer que você entrou no meu apartamento, andar errado, seu cretino. Chegou de fogo, se enfiou na minha cama no escuro e, enfim... Céus! você... enfim...

– É. Mas que loucura...

– Safado! Me comeu na marra. Seu traidor!

– Você está louca? Você me agarrou, foi passando a mão, foi... Eu só queria dormir, tava de porre, pô. Não tive culpa.

– Como não teve culpa, seu abusado? Eu pensei que era o Arizinho que tinha voltado antes da viagem. E agora, Meu Deus, o que é que eu faço? 

– Ué... não sei. Acho que o melhor é a gente ficar quieto. Ninguém tem que saber.

– Claro! Só faltava você contar pro prédio inteiro que me comeu. O Arizinho te mata. Ai, ele me mata também! Ai, meu Deus, não me abre essa boca, por caridade!

– Eu, abrir a boca? E a Helena? Ela acaba comigo, vai ser o maior inferno. Vê se não vai me dar uma de Madalena arrependida e acabar contando tudo pra ela mais tarde, numa crise de consciência.

– Ai, Heitor. Você acha que eu sou assim tão retardada?

– Não acho nada. Não sei. Mulher é esquisito. Mas pode ficar fria, que eu...  Pô,fria você?! Você é mulher mais quente que eu já...

– Olha o que você vai falar, seu tarado!

– Tarado, eu?!... Pô, Alice, já esqueceu tudo o que você fez esta noite, no escuro? Quem tava de porre era eu...

– Já falei que pensei que era o Arizinho. Bem, admito que eu estranhei muito. Pensei que tinha acontecido um milagre, o Arizinho tão forte, tão fogoso, sem arriar todo aquele tempo, gemendo e urrando, um espetáculo. Só podia ser por causa da bebida, pensei. O Arizinho nunca bebe. E ele nunca quis saber de fazer aquelas... Ai, que que eu to falando, meu Deus!...

– Aquelas o quê?

– Aquelas... Ah. Você sabe o que eu quero dizer!

– Ah, aquelas... É. Eu até estranhei a maneira que você urrava, parecia outra pessoa.

– ERA outra pessoa, seu cretino! E eu urrava, é? Urrava?

 – É, eu acho que sim, pelo menos foi como eu ouvi ali de baixo.

– Pois ouviu errado, você estava de porre, seu bebum!

– Não urrou então?

– Não, que eu não sou bicho. Tá certo que me excedi nos gritos, não deu pra controlar, nunca antes alguém tinha feito assim tão bem feito comigo. Ai, ai, esquece, eu não disse isso.

– Disse sim, acaba de dizer. Gostou é?

– Não vou responder. Ei, não puxa o meu lençol!

– Pô, você é ruiva total, toda ruivinha, não é só no cabelo. Que lindinha!

– Pára, seu animal! Já disse que não foi por querer. Me dá esse lençol!

– Tá, toma. Mas que é lindinha demais, isso é.

– Lindinha?...

– Mimosa, delicada, ruivinha. Eu nunca tinha visto assim.

– Lindinha, é?...

– Muito!

– Você acha mesmo?

– Acho. A mais linda que eu já vi.

– Verdade? Jura?...

– Juro. Deixa eu ver de novo? Só um pouquinho. Linda demais...

– Só um pouquinho...  Anh...  e você faz aquilo de novo? Só um pouquinho...

CAI O PANO. FIM DO PRIMEIRO ATO, EM RESPEITO A LEITORES(AS) MORALISTAS, INCLUÍDOS AÍ OS FALSOS MORALISTAS, QUE SÃO SEMPRE A MAIORIA ABSOLUTA E NADA SILENCIOSA. (Tanto uns, quanto outros são, pelo geral, OS PIORES!)

domingo, 5 de novembro de 2017

HYDNA DE SCIONE  -  Conto histórico
MILTON MACIEL 

O sacerdote abaixou o braço e os seis auxiliares puxaram as cordas ao mesmo tempo. De sob os panos brancos que as cobriam, surgiram duas verdadeiras obras-primas, as estátuas de Hydna e Scylias, de Scione – os maiores nadadores e mergulhadores de toda a história grega. Era o ano de 480 AC e eles estavam no grande templo de Apolo, em Delphos, para receberem a mais do que merecida homenagem.

Orgulhoso, o pai passou o braço musculoso pela cintura de sua bela e atlética filha de 18 anos e falou, sorridente:

– Um magnífico trabalho, sem dúvida, minha filha. Mas não faz justiça à sua beleza. Você é dez vezes mais bonita do que esse mármore formidável, digno de um Fídias. Acho que só ele teria sido capaz de representar você em todo o seu esplendor.

– Ora, pai, que importância tem isso, quando nosso feito recebe dos Anfictiões uma homenagem de tal envergadura? Por mim, podia ser apenas uma coluna de pedra e eu já estaria mais do que feliz e glorificada.

E, enquanto ali, em frente ao Górgias, sacerdotes e sacerdotisas entoavam hinos e moviam-se ritualisticamente, fazendo a consagração das grandes estátuas, Hydna voltou rapidamente ao passado recente, àquele dia da tempestade destruidora, a bordo de um dos trirremes da frota do rei persa Xerxes. Quando os ventos começaram a fustigar as embarcações e todos os grandes barcos da frota foram rapidamente ancorados à costas do Monte Pélion, Scylias comentou com a filha:

– Xerxes é um louco, mandando fazer esta manobra para o sul, ao longo desta perigosa costa da Eubeia. Era mais do que certo que nos defrontaríamos com alguma grande tempestade como esta que está vindo aí.

– Muito grande, pai?

– Sim, minha filha, arrasadora.

– Então pode ser a nossa grande chance.

– Sim, podemos fugir aos nossos captores durante a tempestade. Eles jamais pensariam que nós somos mais loucos que Xerxes e que podemos pular num mar tão revolto como vai ficar este em mais alguns minutos.

– Ah, mas nós somos, sim, pai. Nós podemos enfrentar qualquer mar, o senhor me ensinou isso desde que eu era criancinha. Não foi à toa que eu passei mais de dez anos de minha vida mergulhando em grandes profundidades e nadando mais de 5 furlongs (12 quilômetros) por dia, sempre em sua companhia.

– Minha menina, minha grande companheira, você é o orgulho do seu pai, a maior nadadora e mergulhadora de toda a Hélade. Agora mesmo, dias atrás, quando mergulhamos para recuperar o tesouro afundado de Xerxes, você demonstrou uma perícia e uma coragem que deixou todos os persas estupefatos.

– Nós DOIS fizemos um trabalho magnífico, pai. E recebemos uma boa parte do ouro recuperado.

– Que não vai nos valer de nada, porque agora somos prisioneiros neste navio. E permaneceremos nessa condição enquanto esta guerra não terminar. E o pior é que tudo indica que vai terminar com Xerxes esmagando toda a Hélade. Só nesta frota existem mais de 200 navios. Como os gregos poderão resistir?

– E pior ainda é que eles já se preparam para a grande invasão por terra, estão concentrados nas Termópilas, depois de terem arrasado o pequeno exército grego que lhes opunha resistência ali e matado o grande Leônidas de Esparta, com seus 300 heróicos espartanos.

– Eram mil e quatrocentos homens, filha, nunca esqueça que também heróicos foram os téspios e os tebanos, que se ofereceram para ficar com os de Esparta, sabendo que teriam morte certa, o preço que pagariam por retardar o avanço dos cem mil persas de Xerxes.

–  Tem razão, pai. Espero que a História não os esqueça. Graças ao sacrifício de todos eles, os gregos tiveram tempo de reunir seus exércitos e preparar a resistência. Mas com a chegada desta frota colossal, como será possível resistir aos persas, meu pai?

– Será totalmente impossível, Hydna. Temos que rezar aos deuses para que esta tempestade provoque danos muito sérios nestes navios deles. Veja, olhe só o tamanho das ondas que estão se aproximando. O dia está virando noite. Ah, que pena que eles tiveram tempo de ancorar solidamente seus trirremes antes da tempestade!

 – Se não estivessem ancorados...

– Ah, filha, se chocariam uns com os outros às dezenas, afundariam em grande número. E os que sobrassem ficariam danificados demais para combater. Ah, se os deuses nos ajudassem!

– Pai: e se nós ajudássemos os deuses?

– Como assim, minha filha?

– Bem. Nós já estamos decididos a pular no mar daqui a um instante e nadar até Artemísia, uns 6 furlongs, mergulhando primeiro, para ficarmos ocultos aos persas e nadando depois. Isso significa deixar todo o nosso ouro aqui, o que não nos importa, não é?

– Certo que não, filha. Mais importante é a liberdade. E a honra: somos gregos e, se logramos escapar, podemos revelar a nossos generais todos os planos dos persas. Só não estou entendendo o que você quer dizer com “ajudarmos os deuses”. Como isso seria possível, se nós é que precisamos de ajuda deles.?

– Ora pai, já que vamos pular nesse mar de agonia, não precisamos ter pressa dentro dele. Não vamos levar nenhum ouro certamente. Mas podemos levar nossas grandes facas de mergulho.

– Por Posseidon, minha menina! Você é um gênio! Sim, nós podemos mergulhar a cortar as cordas de amarra, de âncora, de um grande número desses grandes barcos.

– Nem precisa ser de tantos, pai. Cada um deles que ficar solto neste estreito vai parecer um touro furioso, batendo impiedosamente em muitos outros navios ancorados. E os persas nada poderão fazer. Veja, as primeiras ondas já estão começando a cobrir o convés. É hora de saltar! Vamos pegar as facas longas.

E agora, contemplando sua própria estátua em Delphos, a linda mergulhadora grega pegou carinhosamente a mão de seu pai e mestre. Ante seus olhos semicerrados desfilaram os minutos aparentemente infindáveis em que ela e Scylias mergulhavam e voltavam à tona para respirar, em meio ao mais terrível mar que já haviam enfrentado na vida. E a cada novo mergulho, em meio a uma escuridão quase total, no limite de suas capacidades respiratórias privilegiadas, mais uma grossa corda era cortada por ambos em conjunto.

Os persas, em pânico, não conseguiam entender porque tantos trirremes se soltaram, mas mais de trinta desses enormes barcos estavam agora à deriva, provocando violentos choques estrondosos, esfacelando-se e esfacelando um grande número de outros barcos. Um deles quase apanhou os mergulhadores, esmagando-os contra um barco ancorado. Não fosse a grande experiência de Scylias e ele não teria conseguido avisar Hydna a tempo de mergulharem os dois muito fundo, para escapar do choque iminente.

Mas escaparam. Não só escaparam das vistas dos persas, percorrendo uma grande distância sempre mergulhando, como nadaram na tempestade por mais cinco furlongs até chegarem a Artemísia. Ali a população os recebeu como heróis. Os planos dos persas foram revelados, dando tempo aos gregos de saberem que iam cair numa armadilha, pois outra frota persa avançava do norte para o sul. E Xerxes contava com espremer os navios atenienses entre suas duas frotas.

Mas frota do sul estava agora arrasada! Um único homem e uma única mulher, uma menina de dezoito anos apenas, haviam dado cabo de dezenas e dezenas de trirremes que foram a pique. E os que sobraram flutuando estavam tão danificados que levariam meses para serem recuperados.

Foi somente graças a essa intervenção dessa filha e desse pai heróicos, que a frota grega foi capaz, pouco tempo depois,  de derrotar a armada Norte de Xerxes na grande batalha final de Salamina.

Scylias olhou com ternura para sua menina, tão mais bonita que aquela estátua maravilhosa ali à frente deles, em Delphos. Sim, ela tinha razão. Eles é que tinham ajudado os deuses a ajudarem a Hélade inteira.
                                                             TRIRREME GREGO